terça-feira, 21 de julho de 2009

ARRABIDA WORLD MUSIC - REPORT PARA RUA DE BAIXO



Os Heavy Trash de John Spencer, Tinariwen, Tcheca, Sun Ra Orkestra entre outros, apadrinharam a primeira edição do AWM. Um festival à imagem de muitos por este país fora, mas que por terras do Bocage acabou mesmo por ser uma lufada de ar fresco.


Depois de vinte anos de um quase deserto cultural no que á música concerne, surge uma aragem chamada Arrábida World Music Festival pelas mãos da empresa Globalshare e da Câmara Municipal de Setúbal.

Um ambiente demasiado familiar acabou por se enclausurar nas muralhas do forte de São Filipe logo à entrada, a segurar vontades de copo em riste e amparados pela cacimba atlântica pelos pinheiros que sobejavam dos velhos muros.

3 de Julho

Tcheca

A audiência esperava pelas mornas do cabo-verdiano Tcheca no palco principal - Palco World - com uma ansiedade milenar e sentia no ar um cheirinho a festival que se misturava com a caruma emanada pelo parque natural da serra da Arrábida.

O músico africano chegou ao palco com um considerável atraso para se encontrar de frente para um cenário medieval, e com alguma destreza na forma como dedilhava a sua guitarra, dar ensejo ao festival acompanhado por um contrabaixo e percussão. Depressa se desembaraçou de uma timidez madrugadora e com o público rendido, retirou da serra um espectáculo bastante aplaudido pelos meus cicerones.

Tinariwen

Enquanto Tcheka encantava o público com as suas mornas, ali mesmo em volta alguns transeuntes deleitavam-se com a bebida dos deuses. A sangria de hidromel que nascia nas catacumbas dos cantos entoados por Carmelitas Descalças e escorria pela velha muralha até uma bilha de barro do séc. XV. À concha era servida em copos de plástico do séc. XXI, onde no fim se encontravam sempre alguns matreiros morangos que haviam de fazer o seu efeito. Isto num serviço castiço que escapou às malhas das mariquices da ASAE.

A bebida dos deuses fazia já o seu efeito psicadélico quando em palco recomeçara a música com uns loops manufacturados no artesanato sonoro do Mali e escutados com a aparição da banda Tinariwen. Percurssora dos Blues, a música popular do Mali tem nesta banda de etnia Tuaregue e ex-guerrilheira do deserto do Saara, a grande revelação do festival. Balançado ao som do seu psicadelismo numa toada campestre ouviu-se a paisagem do seu último (e aclamado internacionalmente) álbum, “Aman Íman” num concerto que dificilmente escapara à memória dos que assistiram. Pois até os pinheiros balouçavam sobre o ritual sonoro que as fileiras da frente recebiam e que numa vaga o transportava pelo recinto. E lá se despediram da oceânica Arrábida com um encore, mas não sem antes tocarem o tema “Ai Du” do mestre Ali Farka Toure.

Lengendary Tiger Man

Finita a odisseia do portal tripante da música do Mali, o chamamento para subir as escadarias da Fortaleza e no seu convês encontrar descanso, era forte . Com as luzes de uma renovada Setúbal e com o brilho da ostentação do Tróia Resort ancorada entre o Sado e o Atlântico, recebemos Paulo Furtado, aka Lengendary Tiger Man. Um concerto num cenário desconcertante, pois era simples, se desviássemos o olhar do palco, o espectáculo permanecia em todos os quadrantes.

Tendo a lua como testemunha deste pacto, Legendary Tiger Man recuperou os velhos Blues do Diabo e tocou a música que vem das entranhas. Canções dos The Cramps e até o “route 66” de Bobby Troup, intercalados com originais do One-Man-Band. O concerto avançou sobre os velhos alicerces do Forte, que balouçavam sobre os pés de um público sedento de música na terra do Poeta.

Uma talhado próximo LP Femina a sair em Setembro, caiu a meio do concerto, o single ‘Life ain’t enough for you’ o que deixou antever mais um bom trabalho que conta com as colaborações de Peaches e Lykki li.
‘Olhó o Jameson, Paulo!’ e ‘Não te esqueças do Busmills!’, gritavam constantemente os mais destemidos convivas junto ao palco ao que o jovem músico de Coimbra acenava que sim, enquanto poetizava com o vento que com ele afinava o concerto. Mas ninguém gritava por Café del Mar, é que não se mete uma paelha numa caldeirada à setubalense, simplesmente não combina! E muita gente desceu a encosta mal o concerto findou.

4 de Julho

Mazgani

Ao segundo dia, com um moldura humana mais visível e com algumas personagens a caírem da revista caras, como o vocalista de uma certa banda de Cascais perdido na baía e um busto enfeitado com um corpete dourado à laia de Big-Brother, arrancamos para mais uma sessão.

Vestido a vigor e ladeado por um contrabaixo, guitarra e uma bateria palmeloa, sobe ao palco um artista a monte no pregão sadino da música de canastra - Mazgani - que, a jogar em casa, deambulou pelo palco com alguma confiança.

Nascido no Irão e a viver em Setúbal desde os seis anos de idade, o artista fez desta cidade a sua musa. O músico entrou a distribuir cumprimentos ao público e aproveitando o calor caseiro, nos braços dos amigos depositou muitos temas novos que aqueceram o serão deixando no ar a certeza de mais um excelente trabalho que se avizinha no formato de um EP, “Tell The People”, para aconchegar e preparar os fãs para o esperado segundo LP.

O concerto decorria celeste e com alguma parolice havaiana; parecendo mesmo que Mazgani era um ponta-de-lança do Haiti a soldo do Vitória, quando das catacumbas se evadiram alguns ratos e tomaram de assalto a guitarra do Songwriter sadino, roendo o som encosta abaixo. Mas depressa foi resolvido numa dança de revienga pela mão polida de um rodie caseiro.

O aroma agridoce da música de Mazgani, terá nova colheita brevemente e contamos com ele para muitos concertos a beira Sado, mas também por este pais fora e quem sabe, uma perninha na Taça UEFA!?

Sun Ra Arkestra

Numa distracção de matrecos, o Jazz arribou para o segundo concerto do Palco World, tocando o cartaz do AWM com o nome de Sun Ra Arkestra. Confuso com o efeito das luzes, perdi a conta a quantos músicos subiram ao palco para acompanhar a caçada das matreiras raposas em dentadas de Free-Jazz e com a raiva de Big-Bands, num avermelhado brilho de lantejoulas em palco a encantarem a serra e os seus indígenas.

Ao som estridente que acumularam em palco, a qualidade do mesmo ficou mortiça. Se fechasse os olhos com força poderia imaginar um John Zorn nas plácidas águas do Sado, mas não! Por mais que a vontade me pedisse, isso não aconteceria pelo palco apenas, e muito tocavam, uns vultos da banda do falecido Sun Ra, a acordar tudo o que vivesse no estuário do Sado e no parque natural da serra da Arrábida.

Heavy trash

Pausadamente com os tímpanos a refazerem-se, subimos a gasta pedra que pavimenta a escadaria até à pousada, olhando as rugas ao forte e encaixando a sua sabedoria. Muita gente já se prostrara no Palco Blues para o acontecimento que se seguia e do ventre da serra como um vulto de um pastor, saiu caminhando com a guitarra por cajado num passo embriagado, John Spencer.

O músico escalou a pedra até ao púlpito oceânico escapando-se por entre os dedos da multidão, e como uma folha perene depois da seca, se expandiu de um arbusto de urze do Mississípi a beber a maresia atlântica. Um rockabilly charroco incendiou a encosta logo nos primeiros acordes, pelos incendiários Heavy Trash sadinos, capitaneados por um John do choco frito, flamejando ainda mais o clima do Mediterrâneo temperado. Alguém a meu lado vislumbrou uma estrela cadente pois o solstício começara e subitamente a 5 metros de mim, encontrava-se um ícone do Rock a dizer maravilhas da minha cidade. «É um prazer estar aqui convosco nesta cidade maravilhosa, perante esta vista fantástica», cumprimentando o público.

À segunda música o baterista levantou-se e do bolso traseiro das calças tirou um pente com o qual amanhou o cabelo que muito se iria eriçar nas duas horas em que a incansável banda tocou.

Os solos do contrabaixo, acompanhavam a voz funda numa e noutra música a uma velocidade estonteante à qual se juntavam rifts de guitarra sem que se notasse uma falha. A constante comunicação entre a banda estendia-se ao público que apelava a um serão de puro Rock & Roll e que a banda prendou com malhas de Blues frenéticos. Por isso foi sem surpresa que o baterista, novamente se levantou e com a tarola na mão saiu do palco a tocar para ir se abastecer de Whisky.

Outro momento único aconteceu no final quando John Spencer num mergulho encarpado se afundou no público para junto dele cantar uma música, sentando toda a plateia na pedra fria para um ritual de feiticaria. «Vá lá, sentem-se todos. E digam ‘Eu amo-te’. Porque o Amor é uma coisa mágica», entoava John Spencer, a receber de volta o eco do público.

Eu finalmente acabei por tocar Deus e ver a luz – este festival é um diamante por lapidar – vi eu e muitos que se deslocaram ao AWM que se saldou por positivo apesar de lá para o fim haver uma coisa que não se sabia bem o que era, e que toda a gente no recinto se interrogava como é que aquilo caiu ali.

Desci à cidade com os tímpanos ainda a refazerem-se e pedi a Deus encarecidamente – pois havia estado em contacto com ele – que o baterista dos Heavy Trash oferecesse o pente ao tal Dj café del mar – que nunca soubemos o nome, pois nunca sabemos quando o trapaceiro destino nos prega uma partida e em terra alheia nos vemos despenteados.

in rua de baixo